8 de fevereiro de 2019

VULCÕES E TERREMOTOS


Nossa terra, abençoada por Deus, não tem vulcões, terremotos, tsunamis nem nevascas. Ao contrário dos dramas da seca de outros lugares, somos beneficiados pela maior rede fluvial, lacustre e marítima do mundo; e ganhamos de brinde a maior floresta desta terra. Mas a abundância cobra seu preço: somos vítimas da água, em temporais tropicais que o resto do mundo não conhece. Trovões, raios, chuvaradas e enxurradas diluvianas causam tragédias que raramente acontecem em outros lugares. Como o resto do globo não precisa tomar cautelas especiais para minimizar as consequências negativas dos fenômenos aquáticos, não nos preocupamos também por aqui em tomar medidas para evitá-las.
Nosso povo adora até fazer seu rancho à beira dos rios, mesmo que eles periodicamente transbordem; construímos até cidades sobre redes fluviais nada tranquilas e na encosta de montanhas instáveis, fatos evidentes no Rio de Janeiro e em São Paulo.
As serras do Rio de Janeiro e cercanias são meras pedras revestidas de tênue e instável camada de terra, onde brota a vegetação sustentada por raízes superficiais. Mesmo assim, casas são aí edificadas para a população habitar; em seguida, as árvores morrem ou são arrancadas, as chuvas de verão levam a terra remanescente e provocam o desprendimento e rolagem de pedras por vezes gigantescas, que destroem as casas ali construídas matando as pessoas que nelas moravam. Os deslizamentos se repetem; minimizam-se às vezes seus efeitos mas, como as causas permanecem, assistimos todos os anos ao trágico retorno do mesmo.
A cidade de São Paulo foi erguida em uma área onde havia fantástica tessitura de rios, riachos, canais e arroios que conduziam a fartura das águas tropicais ao grande canal do Rio Tietê. Os moradores da região preferiram então edificar bem próximo às margens dessas águas, sem levar em conta que, em certos períodos seu volume cresce e terras vizinhas precisam ser ocupadas. Como parecia mais econômico, fizeram dos veios d’água canais para o esgoto doméstico e, em seguida, para evitar seus maus odores e criar vias para o tráfego crescente de veículos, foram eles cobertos com placas de concreto e transformados em avenidas. Então, nas épocas de aumento natural do volume das águas, estas não têm alternativa: abandonam os canais subterrâneos nos quais foram aprisionadas, submergem ruas e avenidas, invadem casas, destroem utensílios domésticos e tiram a vida dos incautos.
Rio e São Paulo são apenas exemplos do que se dá, em maior ou menor escala, em todo o País. Tudo porque os brasileiros não aprenderam que não estamos no hemisfério norte; que a falta de vulcões, terremotos, nevascas e tsunamis é substituída pela violência das águas que precisam ser controladas de uma forma por lá desnecessária.
Hoje, se quisermos começar a prevenir nossos desastres, será necessário destampar rios e riachos, desentulhar suas calhas, criar espaços para receber os volumes de águas periodicamente acrescidos, recuperar, enfim, a natureza violentada; em paralelo, criar redes para a coleta e tratamento de dejetos, abrir novos espaços para o trânsito e estacionamento de viaturas. Na certa as cidades ficarão muito mais bonitas e muito mais saudáveis, mas, a que custo? Em quanto tempo?
Todavia, é imperioso fazê-lo, mais cedo ou mais tarde, se não quisermos continuar assistindo à tragédia anual das águas tropicais lavando as montanhas cariocas e afogando as vielas paulistas.

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