21 de março de 2019

VW XII - RELAÇÃO GOVERNAMENTAL

Três fatos exemplificativos das dificuldades enfrentadas pela indústria automobilística em seu relacionamento com o governo, em razão da falta de liberdade econômica:

         1 – Estávamos sob congelamento oficial de preços, regra que nem sempre era aplicável a nossos fornecedores, o que gerava situações inadministráveis. Fui encarregado de levar essa queixa ao Ministro da Fazenda. Sua reação inicial foi que se tratava de política oficial indispensável ao País, tendo em vista a crise econômica que enfrentava, e a indústria automobilística deveria colaborar com ela. Contestei não ser possível a nenhuma empresa colocar no mercado produto cujo custo de fabricação fosse superior ao preço praticável. Ele não titubeou: “lancem produto novo, que não estará sujeito ao congelamento”. Expliquei-lhe que produto novo na indústria automobilística demorava cinco anos para sair da prancheta e chegar ao consumidor, mas ele não se deu por achado: “basta uma cor diferente ou a retirada de algum acessório...” Assim foi feito e os compradores nunca entenderam porque o fabricante vendia aquele veículo com menos detalhes a preço maior do que o modelo anterior. Nossa resposta só podia ser o silêncio, pois, realmente, só a burocracia poderia explicar o fenômeno.

         2 – Preocupados em evitar queixa futura do Ministro da Fazenda de ter sido o último a saber, coube-me a tarefa de informá-lo de que o fusca iria sair de linha nos próximos dias. A reação foi brusca e imediata: não permitia fazermos aquilo. Tive, então, que esclarecer que minha missão não consistia em discutir o assunto, mas apenas em informá-lo sobre decisão já tomada. Pareceu acalmar-se, mas indagou de quanto seria o aumento de preço necessário para manter o produto. Respondi que não tinha uma informação precisa sobre o assunto, mas acreditava que nem 45% seriam suficientes. “Não dou!” bradou ele, ao que fui forçado a retrucar que não estava pedindo... Minha saída do gabinete não foi das mais agradáveis, mas, na semana seguinte, a linha do fusca estava desativada, conforme tinha sido programado.

         3 – No ápice da crise, a ANFAVEA negociou com o Ministério da Fazenda acordo segundo o qual o setor faria grande investimento, compensado pela liberdade de preços. Formalizado o documento, a esperança voltou a raiar. Eis senão que o Ministro foi substituído e seu sucessor anunciou à imprensa, como terapia contra a hiperinflação, novo congelamento. Acompanhei Sauer na visita a ele, para lembrá-lo do compromisso bilateral que fora assinado. Espantou-nos sua reação: “eu não assinei esse papel, por isso não estou obrigado a cumpri-lo”. O sangue subiu-me à cabeça e não me contive: o acordo efetivamente não foi celebrado pelo senhor, mas pelo governo brasileiro do qual o senhor é servidor. Sauer brecou meu ímpeto. Saímos do gabinete e a empresa foi forçada a ingressar no STF com um mandado de segurança, durante cuja tramitação o Ministro resolveu-se a dar cumprimento ao papel que não assinara...

         Salve a liberdade econômica!

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VW XI - NA ESCOLINHA

Já escrevi que a escolinha VW-SENAI, quando assumi a Diretoria de RH, já era modelar. Fora montada e equipada de forma exemplar e era dirigida por pessoal competente e dedicado. Uma turma de estudantes fazia ali o curso regular pela manhã e o profissionalizante à tarde, enquanto outra turma invertia o horário. Os formados tinham estágio ou emprego garantidos na empresa. Por isso, os funcionários disputavam as vagas para seus filhos e era difícil a admissão de pessoal externo.

Preciso fazer um parêntesis para informar que, entrementes, a VW assumira o patrocínio das Aldeias SOS em São Bernardo do Campo. Uma pessoa amiga cedera um terreno de sua propriedade no Riacho Grande, nas imediações de uma escola; ali a empresa construiu um conjunto de casas e selecionou casais para ocupá-las, com a obrigação de receberem crianças órfãs, de preferência recém-nascidas, para criarem como pais. O pessoal VW controlava a fidelidade e eficiência do trabalho dos casais e dava assistência às famílias assim constituídas. Eram muitas as pessoas que, atraídas pela empresa, contribuíam também para as despesas da obra. Uma vez ao ano realizava-se no local uma festa com o propósito de divulgar o empreendimento e arrecadar novos recursos para ele. Quando atingiam a idade de ingressar no então denominado ginásio, aquelas crianças eram matriculadas na escolinha VW-SENAI, que as preparava também para o período laboral. Cuidou sempre a VW para que tudo isso permanecesse em absoluto sigilo, pois não queria que fosse utilizado em benefício de imagem para a empresa.

Anualmente, nas solenidades de formatura, eu costumava participar e dirigir algumas palavras de estímulo e cumprimentos aos recém-formados. Aconteceu, em determinado ano, que entre os formandos havia um originado das Aldeias, fato do absoluto desconhecimento de professores e colegas. Caí, no entanto, na esparrela de festejar o evento dizendo, entre outras coisas, que um dos formandos (apesar do desconhecimento geral) era originário das Aldeias. Ele explodiu em choro e eu fiquei arrasado...
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12 de março de 2019

VW X - EU TIVE UM SONHO...

Em uma comemoração, a matriz destinou aos empregados brasileiros um milhão de marcos. Dividi-lo entre 35.000 trabalhadores resultava em quase nada. Sugeri, com aquele valor, a criação da Fundação VW, destinada exclusivamente a prestar serviços ao pessoal. Aprovada a ideia, o resultado da aplicação dos recursos foi inicialmente utilizado para o pagamento de bolsas de estudos para os filhos de empregados.

A meu ver era pouco. Por outro lado, não me conformava com o custo compulsório da empresa com corretores de seguros, agência de viagens, despachantes de veículos, etc. A Fundação contratou então pessoal especializado e criou pequenas empresas prestadoras desses serviços, recebendo da VW o mesmo que ela estava habituada a pagar a terceiros. Dentro de tal plano, em vários aeroportos havia já uma locadora de veículos VW. Era propósito que o lucro resultante dessas operações fosse destinado diretamente ao pessoal, por exemplo, aos serviços de saúde dos operários e seus familiares. Estive a ponto de comprar até um hospital que se achava à venda na cidade, pretendo ali reunir todo a equipe médica (mais ou menos 1.000 pessoas) e todos os serviços médicos da empresa. O preço desejado era compatível com as disponibilidades. Mas a Diretoria não abraçou a ideia, a partir do princípio segundo o qual sua finalidade era produzir e vender veículos automotores e nada mais.

Na verdade, eu sonhei com o dia em que todos os benefícios ao pessoal estivessem separados da folha de pagamentos da empresa e garantidos contra crises que eram, então, frequentes. Foi na Fundação que começamos, também, a estruturar o Plano de Previdência Privada VW, mas o governo impediu sua continuação porque, por disposição legal, esse projeto devia ser absolutamente desligado da empresa e não entendiam que a Fundação preenchesse tal requisito.

A formação da Autolatina deu o tiro de misericórdia no sonho que se tornou impossível, como o de Dom Quixote.
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10 de março de 2019

VW IX - A CRECHE

As empregadas mulheres queixavam-se com frequência das dificuldades de trabalhar não tendo com quem deixar os filhos. Comovidos, decidimos proporcionar-lhes uma creche.  Foi construído um prédio no terreno do Clube VW e recrutado o pessoal especializado para cuidar das crianças: pedagoga, enfermeira, pediatra, cozinheira...

Preparada a inauguração, convidei o arcebispo para a bênção inaugural. Respondeu-me estar impossibilitado, porque tinha viagem aprazada para Roma. Retruquei-lhe que a inauguração estava adiada para depois da volta dele. Retornou e não deu sinal. Cobrei resposta e tive o dissabor de ler que os compromissos assumidos com o operariado não lhe permitiam participar de eventos dos empregadores... A creche foi inaugurada sem a desejada bênção e nos proporcionou imensa alegria.

Mães chegavam à fábrica de ônibus, com o filho no colo. Em vez de irem para o local de trabalho, dirigiam-se a outro ônibus que as levava à creche, onde deixavam as crianças com o pessoal que cada vez mais se afeiçoava a elas; um sentimento recíproco.

A creche só deu um problema: as crianças não podiam ficar eternamente lá, por isso foi estabelecida uma idade limite (se bem me lembro, 3 anos). Quando as crianças atingiam esse limite e deviam abrir vaga para outras, as mães protestavam. Vinham em comissão ao meu escritório, choravam... e eu nada podia fazer!

É uma das obras inesquecíveis de RH. Não sei como acabou.
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8 de março de 2019

VW VIII - COMISSÃO DE FÁBRICA

Na Alemanha, grandes empresas, como a VW, estão sujeitas à legislação sobre A Constituição do Conselho de Empresa, que regulamenta a cogestão. Na VW, o Diretor de Recursos Humanos é indicado pelos trabalhadores. Em paralelo com a Diretoria Executiva, escolhida pelos acionistas, há o Conselho de Empregados, eleito por estes, com poder de veto sobre questões que envolvam interesse do pessoal. Acima da Diretoria Executiva e do Conselho dos Empregados, o Conselho Superior da Empresa é integrado por vinte membros, dez dos quais eleitos pelos empregados, e presidido por um dos representantes dos trabalhadores.

Antes de assumir a Diretoria de Recursos Humanos, um grupo de integrantes do Conselho de Empregados da VW AG visitou a VW do Brasil. Durante a visita, insistiram com Sauer sobre a necessidade de instaurar a cogestão na filial brasileira. Como participante do grupo brasileiro que os recebeu, expliquei que nossa legislação não o permitia, mas aceitei o convite para visitá-los e ver como operavam. Lá tive ótima acolhida, coligi toda a legislação sobre a matéria, todas as normas fundamentais deles e da empresa sobre o assunto e vi in loco como atuavam.

De volta, elaborei o projeto de Comissão de Fábrica, encarregada de representar, na VWB, o interesse dos operários no diálogo com os empregadores. No texto, tomei a cautela de substituir todas as vezes em que aparecia ou estava implícito o verbo decidir pelo verbo sugerir. Assi o sistema foi implantado em setembro de 1980.
Assumindo depois a Diretoria de Recursos Humanos, organizei a primeira eleição de representantes de empregados. O Sindicato opôs-se, recomendando que ninguém votasse e, percebendo que não estava sendo ouvido, lançou como candidato João Ferrador, figura fictícia. Mais de 60% dos funcionários votou e elegeu os primeiros representantes; tomaram posse e exerceram suas funções com total liberdade e respeito.

Em seguida, o Presidente do Sindicato manifestou interesse em reformar alguns dispositivos do regulamento, o que aceitei prazeroso, pois assim se consolidava a aprovação do Sindicato. Guardo com prazer minha foto com Jair Meneghelli assinando o texto reformado. Concluído o primeiro mandato, para as novas eleições, o Sindicato propôs uma chapa, que foi vitoriosa, tomou posse e exerceu a função com o mesmo respeito e a mesma liberdade da anterior. Assim nasceu a Comissões de Fábrica na VW do Brasil que continua até hoje cumprindo seu papel.

Uma grande empresa só sobrevive se seus trabalhadores tiverem um sistema organizado de diálogo com os Diretores indicados pelos acionistas.
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5 de março de 2019

VW V - SAUER

Havia uma comemoração de formatura dos meninos da escolinha VW-SENAI, que funcionava no prédio da empresa. Percebi, entre os que assistiam à cerimônia, discretamente, de pé, lá no fundo, Wolfgang Sauer. Conclui que ele estava visitando incógnito sua futura empresa, coisa que eu esperava ocorresse desde o momento em que Leiding assumira a presidência mundial. Quase nenhum dos presentes o conhecia naquele momento. Aproximei-me dele e cumprimentei-o pelo fato, ao que ele apenas sorriu. Realmente, pouco depois era anunciado como sucessor de W. P. Schmidt, que retornava para a Alemanha.

Sauer, entre outras muitas qualidades, era um relações públicas nato. Seu diálogo com Presidentes da República, Ministros, Senadores, Deputados e, no plano local, Governadores de Estado, Deputados, Prefeitos, foi sempre natural e facílimo. Utilizou essa arma, seu charme, nos 17 anos de gestão. Desde o início, colocou-me como seu assistente nas relações governamentais, fazendo com que viajasse com ele por todo o Brasil. Eu preparava o roteiro dos assuntos que ele pretendia abordar em cada visita, embora ele nunca tenha aberto meu papel para orientar-se; depois dos encontros, redigia a memória do que fora tratado, mas também ignoro o que ele tenha feito com minhas notas. A verdade é que, enquanto mantinha um relacionamento muito próximo com ele, tive oportunidade de conhecer pessoalmente todas as autoridades de nosso País. Divergências também tivemos, como é humano.

Devo-lhe não só a vinda para a Volkswagen como toda a minha carreira na empresa; devo-lhe 25 anos do bem-estar financeiro de minha família. Fiquei emocionado pelo fato de ele ter tido a gentileza de enviar para o meu arquivo as anotações a meu respeito que Milton Löff lhe dera, bem como cópia da carta que ele mandara a Leiding e da aprovação de meu nome por este.

A última vez em que o vi foi na noite do lançamento de seu livro, mas infelizmente ele, já cego, não me reconheceu. Depois... só o velório.
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VW - VII - RECURSOS HUMANOS

1982. Um Diretor retornou à Alemanha, houve rotação entre os remanescentes e vagou a Diretoria de Recursos Humanos. Candidato natural era Paulo Dutra, mas estava gerenciando o escritório da empresa em Brasília. Sauer convidou-me para a posição, sem prejuízo da chefia do Jurídico, com o qual não precisava preocupar-me: um excelente grupo, magnificamente motivado e gerenciado era autossuficiente. Na Diretoria de Recursos Humanos havia também ótimo pessoal e trabalho em andamento. Cuidava de salários, benefícios, alimentação, assistência médica, educação, segurança, transporte e lazer, naquela época, para 36.000 funcionários. Minha tarefa era manter o que era feito e assumir algumas atividades novas.

A primeira coisa que fiz foi atravessar a rua e ir ao gabinete do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, para surpresa dele. Fui dizer-lhe que a finalidade de nosso trabalho era a mesma: o bem dos trabalhadores, embora nos diferenciássemos sob vários aspectos. Ele nunca levou isso em conta, pois continuou motivando o pessoal contra a empresa.

Publiquei uma carta-compromisso aos trabalhadores:
A empresa é um pequeno mundo onde se encontram os interesses dos acionistas, dos administradores e de todos nós que nela trabalhamos. Ela existe, portanto, também para assegurar o bem-estar a todos os seus colaboradores e dependentes, o que só é possível quando todos trabalham com plena consciência da necessidade de fazê-la progredir. Essa identificação com a empresa é tão indispensável como é indispensável e natural a identificação à família e à Pátria.

A preocupação com o bem-estar e a satisfação de todos aqueles que aqui passam a maior parte de seu tempo não se esgota nunca. Nesse sentido, gostaríamos de deixar claros alguns dos nossos objetivos mais específicos, a maioria deles de realização possível com a qualificação e aperfeiçoamento constante do pessoal da empresa. Na Volkswagen trabalhamos visando concretamente:

- garantir ao colaborador de todos os níveis o seu lugar de trabalho, desde que ele mesmo o queira e desde que, por outro lado, dificuldades econômicas insuperáveis não venham a tornar esse compromisso impraticável;

- proporcionar aos que trabalham na empresa a expectativa de um futuro sempre melhor, criando oportunidades de carreira que possam ser aproveitadas por todos, conforme a habilitação e de acordo com a avaliação objetiva dos méritos de cada um;

- oferecer treinamento constante a todos que desejem qualificação ou dela necessitem para o exercício de suas tarefas ou de outras que estejam ou possam estar à disposição no futuro;

- garantir condições humanas de trabalho, remuneração e benefícios ajustados à realidade do mercado de trabalho e à situação econômica da empresa;

- proporcionar, um dia, uma aposentadoria condigna a todos.

         Em essência, eu queria que todos começassem pela escolinha, fizessem carreira na empresa e se aposentassem com dignidade.

         Da escolinha não precisava ocupar-me, pois tinha sido muito bem montada e administrada. As tentativas com um plano de carreira foram frustradas; hoje, com o sistema informatizado, teria sido factível. Mesmo assim, pude festejar o fato de alguns funcionários terem começado pela escola e chegado à gerência. O sistema de aposentadoria foi a realização que mais encheu minha alma de felicidade.

         Agora, mãos à obra!
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3 de março de 2019

VW VI - RIO CRISTALINO

Em 1973, acompanhava Sauer em visita ao Ministro do Interior, Rangel Reis, que falou sobre o interesse de Geisel pelo desenvolvimento da Amazônia de forma empresarial. Contava com a Volkswagen. Ordem, travestida de cortesia. Compensação: a cada cruzeiro investido seriam dedutíveis três do imposto de renda devido. Sauer, apaixonado pelo campo, interessou-se, sem contar com o apoio da Alemanha nem do Diretor Financeiro local, que toleraram tudo só pelo benefício tributário.

Um escritório de Belém elaborou o projeto. Técnicos foram ouvidos sobre a localização e demarcação de 140.000 hectares em Santana do Araguaia, feitas de avião, pois o acesso à floresta era impossível. Integrei o grupo que efetuou a compra. Um corretor de imóveis colheu a opção de vários fazendeiros na região, ocultando a interessada para evitar a inflação do preço. O Departamento Jurídico VW cuidou da documentação.

Embora a lei exigisse a preservação arbórea de 50% da área, o projeto, cuja tramitação na SUDAM acompanhei, preservava 60%. A relação de 1 para 3 cruzeiros não foi cumprida pelo governo. As viagens à região eram feitas em avião monomotor pilotado pelo corretor, seu proprietário. Certo dia, perguntou-me ele, lá no alto, se seria capaz de reconhecer a cor do gado que pastava em uma clareira. Disse-lhe o pouco que consegui visualizar e ele concluiu que era a fazenda de fulano e, portanto, estávamos próximos. Mais tarde, apareceu com novo aparelho, mais moderno. Em uma das viagens, com mais três dirigentes VW, tivemos que aterrissar no aeroporto de pequena cidade. Ao descer, fomos cercados por policiais armados exigindo identificação, pois ali estava uma divisão da aeronáutica. Nenhum dos passageiros, exceto eu, tinha documentação. Fui levado para uma sala para informações. Percebi que os militares estavam escutando, pelo rádio, um jogo de futebol – Gre-Nal! Aproveitei o gancho e revelei minha condição de gaúcho e colorado... Soube, então, que eram quase todos gaúchos, pertencentes ao destacamento aeronáutico de Canoas/RS, cidade onde eu fora Promotor de Justiça durante 12 anos. Exibi minha credencial e fomos liberados... Meses mais tarde, o avião do corretor caiu. Morreu ele e todos os passageiros, entre os quais 2 Diretores de outra grande empresa. Soube-se, então, que ele não tinha habilitação para pilotar aquele tipo de aparelho e os planos de voo que exibia eram tirados a cada viagem de um bloco em branco que possuía, pré-aprovados por um responsável.

Sauer buscou pareceres de técnicos nacionais e estrangeiros. Um suíço encarregou-se do planejado rebanho de mais de 100.000 cabeças. O início não foi fácil, pois era necessário andar pela mata para a abertura da clareira. Os trabalhadores eram convidados em aldeias às vezes distantes. Os que aceitavam, exigiam pagamento antecipado de parte dos salários, para deixar com a família, enquanto não tinham condições de levá-la. Moravam, nos primeiros dias, em barracas que levantavam com folhas de bananeira. Em pouco tempo surgiu um lindo local. Descobriu-se, no meio da mata, o Rio Cristalino, do qual tenho uma tela pintada por minha esposa. Aproveitei o fato para sugerir a razão social da empresa, aproveitando a imagem positiva da Vale do Rio Doce: Fazenda Vale do Rio Cristalino. Para os empregados foi edificada uma vila, com casas de alvenaria de três dormitórios, água, luz e terreno para criarem galinhas, porcos, animais domésticos, formarem uma horta e pomar. Foram construídos 155 km de estradas, inúmeras pontes, açudes e uma pista para avião. Na entrada da Fazenda, um hospital, com atendimento fundamental prestado por médicos, dentistas e enfermeiros levados de São Paulo. Ali ficavam de quarentena os contratados. Em caso de doença grave ou acidente, o avião da companhia levava o paciente aos hospitais de cidades próximas. Instalou-se uma serraria e uma oficina mecânica. Havia uma bela casa de hóspedes e uma encantadora escola em cuja inauguração crianças, que costumavam andar nuas, descalças, trajavam uniformes, usavam sapatos pela primeira vez na vida e cantaram o Hino Nacional enquanto o Ministro hasteava a bandeira ao som de araras e tucanos que cortavam os céus. Comovente! Em uma das vezes em que lá me hospedei, tive deixar a porta do quarto e uma do roupeiro entreabertas, pois era casa de um filhote de jaguatirica domesticado. Acordei-me pela manhã com o ronco de minha acompanhante embaixo da cama. Tornou-se amiga. Tenho foto dela mordendo suavemente meus dedos. De volta a São Paulo, cada mordida daquelas agulhas apresentou-se infectada e eu com uma febre terrível. Mas foi lindo!

Todos os empregados tinham Carteira do Trabalho, contribuíam para o INSS e seus direitos trabalhistas eram rigorosamente respeitados, inclusive o FGTS. Uma vez ao mês um fiscal do Ministério do Trabalho examinava as condições de trabalho, atualizava as Carteiras e fornecia outras para os novos empregados.

Assim cresceu a Fazenda, chegando a 10% do planejado e a um plantel de oitenta mil cabeças, todo controlado por computador (pela primeira vez no Brasil). Eram feitas experiências com animais, frutas e legumes. Um frigorífico foi instalado por empresários nas imediações, visando à exportação para a Europa.

Aberta a clareira com a necessária derrubada de árvores, os troncos eram estocados e o rebotalho queimado, pois não havia onde colocá-lo. Um ambientalista passou então a escrever que o capital estrangeiro estava queimando a Amazônia. Acusava os alemães de provocarem o segundo maior incêndio da história, só perdendo para Nero em Roma. Como a queimada era necessária e frequente na região, indaguei como ele identificara o que era VW; pelo símbolo VW nas nuvens? Recomendei-lhe também retificar a informação, pois, como Roma não ocupava área daquelas dimensões, este deveria ser o maior e não o segundo incêndio.

Em 1983, um bispo da região começou a acusar a VW de trabalho escravo, publicando a acusação na Alemanha. Alegava que não havia meios de transporte para os empregados saírem da fazenda quando queriam (de fato, não havia navio, trem nem ônibus); precisavam pedir carona ao caminhão que saía de lá; dizia que os trabalhadores eram obrigados a comprar tudo o que necessitavam no armazém da Fazenda (realmente, não havia shopping, por isso foi instalado um armazém onde estavam à disposição os produtos necessários a eles).

A intensidade das acusações foi tal que a matriz decidiu vender a Fazenda, abandonando o que investira. Os trabalhadores voltaram a viver em malocas, sem hospital nem escola, sem trabalho (com ou sem Carteira do Trabalho) nem salário... as crianças voltaram a andar nuas, sem sapatos nem escola...

O mesmo que acontecera com Ford e a borracha; e com o milionário americano Daniel Ludwig, que sonhou aplicar sua riqueza, antes de morrer, na região do Jari, na plantação de arroz e florestamento, para abarrotar o mundo de celulose e alimento. Tendo descoberto ouro em suas terras, passou a extraí-lo respeitando a legislação brasileira, o que praticamente ninguém fazia nem faz; mas não resistiu às críticas; abandonou tudo e hoje lá, como na Cristalino, a área é de conflito.

Em 1986, a VW vendeu o projeto. Vendeu e não recebeu...
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