11 de janeiro de 2018

CARMEN



 
Li nos jornais que a belíssima ópera Carmen, do compositor francês Georges Bizet, acaba de ser encenada, na cidade de Florença/Itália, com uma modificação cênica essencial. Em vez de ser assassinada a facadas por seu amante, no final do drama, é ela que, ameaçada, saca de um revolver e o fulmina. O drama vira comédia. Tudo a pretexto de modernizar a peça e adequá-la à tendência atual de reação à violência contra mulheres.

Um desrespeito à última obra de Bizet, justificado pela modernização e incluído no movimento contra o feminicídio. Vamos então começar nossa reflexão por esse ridículo nomen juris, neologismo criado pelos se-dizentes modernistas. Ninguém mata uma mulher pelo simples fato de ela ser mulher; há sempre um fato motivador. É sabido que predomina, entre as razões para esse tipo delituoso, o ciúme resultante de uma paixão não correspondida ou contrariada. É exatamente este o tema da ópera Carmen. Ela, uma bela cigana sensual e volúvel (seus amores não duram mais do que seis meses) conquista um soldado, Dom José, que é tomado por uma paixão demoníaca. Como soldado, tenta manter a disciplina castrense em paralelo com a fruição do amor da encantadora cigana. Ela, porém, odeia disciplina, adora a liberdade sem limites e, por isso, rechaça-o e troca-o por um toureiro de Sevilha. Dom José, desesperado, tenta reconquistá-la e quando se convence de que isso era definitivamente impossível, no momento em que ela pretende correr para os braços do novo amante, alucinado, trespassa-a com uma faca e fica chorando, com o cadáver nos braços, aguardando que o levem preso. Não a matou, portanto, por ser ela mulher, mas por ser o objeto inatingível de sua ensandecida paixão; matou-a por ser rejeitado e trocado por outro.

Além disso, a pretendida versão modernizada não rima com os costumes da época e da gente cigana, que se protegia costumeiramente com uma navalha, não com revólver.

A Carmen de Bizet não é, portanto, um modelo de feminicídio, como querem esses pretensos modernistas. Aliás, se todos os crimes contra mulher são feminicídios, todos os crimes contra homens deveriam ser hominicídios, o que simplificaria todos os Códigos Penais do mundo, que deveriam passar a tipificar apenas essas duas formas criminais.

Mas não sei o que seja mais ridículo: se um Código Penal com apenas esses dois tipos delituosos ou se esse desrespeito à produção artística, visando a ajustá-la a um modernismo linguístico. Seguindo a lógica da correção do libreto, como a palavra ópera é feminina, a violência contra a ópera de Bizet seria mais uma forma de feminicídio...

Enfim, peço perdão a Georges Bizet pelo mal causado por esses modernistas ensandecidos à sua belíssima filha que, embora nascida há 140 anos e desde então objeto de efusivos aplausos em todo o mundo, assassinada a facadas, não a disparo de arma de fogo. Ela agora está sendo novamente assassinada, desta vez com uma canetada alucinada.
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1 de janeiro de 2018

A PREVIDÊNCIA, DE NOVO




 
 
Há várias décadas, no Instituto Liberal de São Paulo, comecei a manifestar minhas preocupações com o futuro da Previdência Social no mundo e, portanto, também no Brasil. O sistema universal foi imaginado com base no fato de que muitos eram os trabalhadores e poucos os que enfrentavam a necessidade de aposentar-se. No entanto, a queda do índice de natalidade, a partir da fabricação dos contraceptivos, cruzou-se com o aumento da expectativa de vida, graças aos avanços da medicina, do que resultou o elevado número de idosos amparados por um diminuto número de operários. Inesperado complicador foi a tendência à substituição da mão de obra pela tecnologia. Assim, a receita previdenciária diminuiu e a despesa aumentou. Hoje, no Brasil, o montante da contribuição previdenciária recolhida, destinada ao pagamento dos benefícios aos idosos é superior à metade de tudo o que o País arrecada a título de impostos, com a agravante de ser crescente todos os anos. Não é suportável!

A terapia até agora aplicada consistiu em aumentar o valor da contribuição individual e reduzir os benefícios, o que não é mais tolerado. Os cidadãos em idade laboral não podem mais aumentar sua contribuição e os idosos não aguentam a diminuição de seus parcos benefícios.

Enquanto funcionou, nosso sistema previdenciário público acumulou profunda injustiça: para uns, os benefícios são elevados, duplicados ou triplicados, independem da idade do beneficiado e exigem pouco tempo de contribuição, enquanto, para outros, o benefício é um só, em valores ínfimos, mesmo assim sob a condição de o beneficiário ter idade avançada e longo tempo de contribuição. Dessa disparidade decorre a maior reação contra qualquer proposta de modificação da legislação. O grupo dos grandes beneficiados não tolera perder privilégios e os pequenos beneficiários não suportam piorar ainda mais sua situação.

Mas qualquer reforma da previdência deveria começar pela eliminação dessa injusta discriminação, através de uma varredura igualitária, uma varredura de justiça. Todos os beneficiários deveriam estar sujeitos às mesmíssimas regras, pois não há brasileiros mais ou menos importantes: todos são iguais perante a lei, reza o art. 5º de nossa Constituição e a ideia de classes privilegiadas morreu com a Revolução Francesa e a hecatombe do marxismo.

Ao equiparar todos os beneficiários, a reação contra a reforma da previdência começaria, certamente, pelos privilegiados, mas seria bem mais fácil demonstrar o sem razão, a injustiça de sua oposição. Os maltratados de hoje, que são maioria, aplaudiria a iniciativa, visualizando algum acréscimo em seus benefícios.

A grande dificuldade decorre de que o poder de alterar o sistema está total e exclusivamente nas mãos dos privilegiados, que não vão querer cortar na própria carne. Mas é o único caminho, além de ser o caminho da justiça.

Se e quando o Presidente da República e o grupo que o cerca resolverem enfrentar a questão aplicando ao sistema previdenciário brasileiro tratamento inspirado no princípio da igualdade e da justiça precisarão, por certo, trilhar uma viela de pedras cortantes, mas só assim estarão, realmente, buscando a solução do impasse: não um remendo para hoje, mas uma correção definitiva.

É preciso começar.
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26 de dezembro de 2017

EUA x BRASIL



José Maria Marin foi condenado nos EUA, como participante do Fifagate, por locupletar-se ilicitamente na administração da Copa do Mundo, Copa América, Copa Libertadores da América e Campeonato brasileiro, incorrendo assim na prática de seis tipos criminais. Aguarda na prisão o estabelecimento do quantum da pena a ser cumprida. Enquanto isso, seu corréu, Marco Polo Del Nero, que teve a sagacidade de distanciar-se das fronteiras dos Estados Unidos e homiziar-se no Brasil, embora impedido pela Interpol de viajar ao exterior, permanece imune em nosso território nacional.

Aqui, José Genoíno, José Dirceu, Pedro Henry e Valdemar Costa Neto foram agraciados, no ano passado, pelo indulto presidencial de Natal e passaram a gozar tranquilamente de plena liberdade.

José Dirceu, melhor ainda, mereceu como prêmio pelas condenações penais que caíram sobre ele uma aposentadoria com o benefício mensal de R$ 10.000,00, que nós estamos lhe pagando.

Marcelo Odebrecht é prisioneiro em sua luxuosa mansão no Morumbi, em São Paulo e o doleiro Lúcio Funaro é mais um prisioneiro a domicílio, só que em sua fazenda no interior do Estado de São Paulo. A esposa de Sérgio Cabral, Adriana Ancelmo, mereceu também recolhimento prisional à sua própria casa porque tem um filho de doze e um de quinze anos, que necessitam de supervisão (como se a maioria das mulheres que estão presas não tivessem filhos nas mesmas condições).

Três Ministros do STF, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Marco Aurélio tornaram-se famosos pela sistemática libertação de réus que foram presos até por ordem da Corte superior de que participam, circunstância que solenemente ignoram e desprezam. Graças a eles acabam de ir para casa recentemente Jacob Barata (o empresário-mor do transporte coletivo no Rio de Janeiro), o ex-governador Antony Garotinho e sua esposa Rosinha. As determinações dos colegas de Tribunal do comprometido trio, são tripudiadas e eles nem reagem contra isso, o que possibilita gente do povo considerá-los covardes ou suspeitar de que o benefício da soltura resulte de farta compensação monetária. Enfim, nenhum efeito produziu até agora o pedido de impeachment de Gilmar Mendes.

Paulo Maluf, que conseguiu se manter livre durante a tramitação de vários processos crime nos últimos 30 anos, só agora, com a saúde já extremamente corroída, é exibido a caminho da cela, como trunfo demonstrativo da eficiência do Judiciário. Apesar da idade e do precário estado clínico, espera pelo fim do recesso do Tribunal para pleitear também o benefício da prisão domiciliar.

Fechando essa série deprimente, desponta agora um generosíssimo e profundamente suspeito indulto de Natal que servirá de gazua eficaz para abrir as porteiras prisionais, permitindo a saída triunfal de 40 condenados no tsunami da corrupção de políticos e empresários, além de enfraquecer definitivamente o ingente e sério trabalho de juízes, membros do Ministério Público e policiais, contra a lesão patrimonial de empresas públicas e do erário público federal. O Brasil que foi escandalosamente saqueado e que anseia pela punição dos saqueadores, assiste a esse lamentável capítulo final de tolerância judicicom a criminalidade, que lembra o desfecho do processo das Mãos Limpas na Itália: políticos salvam políticos.

Esse paralelo entre a seriedade e a tolerância com que são tratados os delinquentes nos EUA ou no Brasil explica suficientemente porque os índices de criminalidade aqui são tão mais elevados do que lá. Os ladrões de nossa terra esfregam felizes as mãos pensando como é bom, conveniente e tranquilo ser delinquente no Brasil; basta evitar a aproximação das fronteiras yanques... Não precisam mais dedicar-se a delações privilegiadas, pois, no fim de contas, os colegas virão em auxílio deles, até porque todos cometeram os mesmos pecados.
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