15 de junho de 2019

TEMPESTADE EM COPO D'ÁGUA


Os noticiários escritos ou falados estão prenhes de críticas ao Min. Sérgio Moro porque, no passado, enquanto juiz, manteve contatos telefônicos com Procuradores e Delegados de Polícia relativamente a ações criminosas. Pretendem, com fundamento nessa acusação, a anulação de processos criminais e até a libertação de presidiários. Onde reside o problema que origina tal pretensão?

Juízes, membros do Ministério Público e policiais mantêm e precisam manter relacionamento no desempenho de suas funções comuns. Ao tempo em que fui Promotor de Justiça, algumas vezes fui levado a esse tipo de conduta, quer por iniciativa policial, quer por minha iniciativa e nunca me senti comprometido por isso. Tenho certeza de que, em certa oportunidade, a perseguição criminal só se concretizou graças à minha iniciativa e à minha pertinácia. Acompanhei, também, juízes sérios e laboriosos orientando policiais na árdua tarefa de lidar com a delinquência.

Na missão comum dessas autoridades, no combate à criminalidade, nada impede que troquem ideias ou sugestões; ao contrário, convém que o façam, pelo bem público. Delito há ou haveria se algum ou alguns deles atuassem, de qualquer forma, para proteger criminosos ou acobertar a ilicitude. Pelo menos, ao que consta, se entendimento houve entre os pseudo-acusados, não teve como escopo proteger, mas sim reprimir a corrupção. Palmas, portanto, a Sérgio Moro e aos Procuradores e policiais da Lava Jato!

Entendo, por outro lado, que os implicados nos ilícitos e seus comparsas ou admiradores não fiquem satisfeitos porque sua tese, aparentemente tão bem elaborada, não conseguiu a consumação de seus intentos – os condenados continuam condenados – mas não compreendo que criminosos pretendam que as ações das autoridades públicas devam ser pautadas por seus anseios de impunidade e que isso ainda mereça aplausos.

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6 de junho de 2019

Ministro BARROSO

Assisti, no dia 1º de junho último, à entrevista do Ministro do STF, Luiz Roberto BARROSO, à equipe de comentaristas políticos da Bandnews e fiquei muito bem impressionado. Lamento não ter encontrado, até hoje, passada uma semana, a reprodução do programa em nenhum arquivo, pois gostaria de refletir mais sobre ele. Como é natural, no passado, discordei de decisões desse eminente magistrado, mas preciso admitir que tais discordâncias possam ter sido originadas mais por deficiências da minha parte do que dele.

Não estou preocupado, no momento, com suas decisões, mas sim com a estrutura fundamental de seu pensamento, que, para mim, foi surpreendente. Nunca ouvi algo semelhante de nenhum magistrado brasileiro.

Gostei, em primeiro lugar, da explicação que deu sobre as dificuldades momentâneas do Presidente da República com o Congresso Nacional. Não viu crise política, como insinuavam os jornalistas, apenas lembrou que o candidato Bolsonaro fez sua campanha eleitoral criticando o sistema político vigente e, ao assumir o poder, precisa enfrentar exatamente esse sistema que, então, se volta contra ele com toda a fúria. O conflito, portanto, é natural e era esperado. Precisa agora ser superado.

Mas o que mais me impressionou foi sua forma de pensar essencialmente liberal, pois o liberalismo não encontra boa acolhida em nosso povo, hipnotizado, de há muito, por dirigentes socialistas. Criticou, por exemplo, o peso do Estado brasileiro sobre o indivíduo e a empresa privada, citando nesse passo o pensamento de von Mises e de Milton Friedmann, prógonos mundiais do liberalismo moderno, optando expressamente pela ideia do Estado mínimo, que deixe o maior campo de ação possível à liberdade individual. Fez profissão de fé na livre iniciativa, que assegura o progresso econômico e social de uma nação. No plano jurídico, manifestou arrepios ante a gigantesca corrupção dominante em todos os negócios públicos brasileiros, justificando, destarte, medidas rigorosas do Poder Judiciário contra seus autores. Não ocultou preocupações, no entanto, relativas ao risco de abuso de medidas provisórias restritivas da liberdade individual.

Foi uma hora inteira de maravilhosas surpresas. Minha memória envelhecida já não é capaz de reproduzir todas, mas os dados acima devem ser suficientes para estimular alguém a procurar uma cópia do programa, do que não se arrependerá. Gostaria que todos os nossos juízes, principalmente os integrantes do STF, tivessem semelhante estrutura fundamental de pensamento, o que, infelizmente, não ocorre. Em razão disso, provocado por um dos entrevistadores, foi obrigado a manifestar-se sobre sua atuação no dia em que, durante uma sessão de julgamento, irritou-se com a atitude de um colega e trocou com ele duras palavras. Com elegância máxima explicou que tais cenas não deveriam ocorrer, mas, infelizmente, em certas circunstâncias, acontecem e precisam acontecer; ele preferia, porém, que não tivesse ocorrido com ele.

         Sempre defendi a escolha de um Ministro para o STF pelo Presidente da República a partir do rigoroso preenchimento das condições constitucionais de notável saber jurídico e reputação elevada, e entendo que tais condicionantes seriam mais facilmente atendidas se a escolha fosse feita exclusivamente entre juízes no exercício do cargoO Ministro Barroso não tem origem na magistratura nacional, apesar disso, é um exemplo notável, não tão frequente, de ótima escolha presidencial.
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20 de maio de 2019

PLANO ESTRATÉGICO

Um amigo chamou minha atenção para o que a oposição, em política, está planejando para o nosso futuro. Como se trate de um plano posto em prática em silêncio estratégico, sem estardalhaços, cumpro o dever de atender ao apelo dele chamando a atenção para o fato e suas consequências.
O dia 1º de abril, lembrado sempre como o momento de fazer os outros de bobo, este ano, foi usado sugestivamente por dois Deputados, na Câmara Federal, para protocolarem projeto de emenda constitucional nº 37/2019, segundo o qual, o Vice Presidente da República em hipótese nenhuma assume mais a presidência em caso de vacância, como prevê hoje o artigo 79 da Constituição. Será necessária nova eleição.
A apresentação de emenda dessa natureza depende da assinatura de um terço dos Deputados. Para que seja aprovada, exige-se o voto favorável de três quintos dos Deputados e dos Senadores, em dois turnos. Apesar dessa aparente dificuldade, o número indispensável à apresentação já foi atingido e, nas condições atuais, não parece impossível que o quórum para as aprovações seja também facilmente obtido.
É evidente o propósito dos autores da proposta: planejam a subsequente apresentação de uma pedido de impeachment do Presidente, mas não desejam que o atual Vice o suceda. Têm já seu candidato.
Não importa discutir aqui, nesse momento, se a medida é boa ou ruim para os brasileiros. Cada um de nós tem suas convicções e todas elas devem ser respeitadas. O importante é que todos saibam qual o propósito final dessa iniciativa e de seus autores. Depois optem pelo que entendam melhor para a nação.
É necessário não ignorar, porém, que esse pode ser o novo caminho para um regime de força.
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15 de maio de 2019

PORTE DE ARMAS

Grande e interminável briga nasceu do fato de o Presidente da República ter assinado Decreto autorizando certos cidadãos a portarem armas de fogo. De fato, um Decreto que não faz sentido, pois, em princípio, a todos deve ser permitido o uso de armas para a autodefesa ou a defesa de terceiros (como vige, aliás, constitucionalmente, nos EUA); certo seria apenas impedir os bandidos de usá-las, mas, ao contrário, estes dispõem até de material bélico capaz de derrubar aviões e praticar genocídios. A lei jamais deveria proibir o uso ou porte de armas. O absurdo, portanto, está em que exista uma legislação impedindo homens de bem, em terra de sicários, a terem ou portarem armas.
Como não é possível definir a priori quem seja inocente e quem seja bandido, a regra jurídica só se faz eficaz a posteriori, ou seja, depois de praticada a ação.
A arma, seu porte ou uso, em si mesmos, não caracterizam ilícito. A questão da licitude ou não só se põe quanto à forma e o momento de usá-la. Pessoalmente, enquanto Promotor de Justiça, durante quinze anos, tive porte legal de armas e nunca fiz uso dele porque nunca quis fazer.
Sobre os problemas decorrentes do uso da arma, a legislação vigente já é bastante, dispensando o Decreto. Se alguém faz uso dela de modo imprudente, para atingir outrem, ou admitindo essa possibilidade, pratica um delito e merece a reprimenda legal; se o faz em legítima defesa, própria ou de terceiros, ao contrário, está absolutamente justificado. Equivocado, o debatido Decreto teve a santa intenção de colocar em pé de igualdade delinquentes e cidadãos inocentes. Já que a Polícia não consegue deter a delinquência, não se pode impedir ao cidadão de bem, aplicado o princípio da liberdade, de empregar todas as formas possíveis de defender-se dos criminosos. Nem interessa saber se o autorizado é funcionário, homem do campo ou cidadão comum; todos os cidadãos estão, por princípio, autorizados; ninguém pode ser impedido de preservar a própria vida ou defender seu semelhante. Agora, se fizer uso da arma indevidamente, pretendendo ou correndo o risco de causar danos ou matar alguém, estará sujeito às consequências punitivas da sociedade, com ou sem porte de arma, com ou sem Decreto.
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27 de abril de 2019

VW - XVI - AUTOLATINA

Estava despachando no gabinete de Sauer quando fui informado por ele de que a Diretoria das matrizes Volkswagen e Ford haviam se decidido pela fusão das filiais brasileiras. Motivo, o prejuízo sistemático que acumulavam no Brasil, sem perspectiva de recuperação, por razões políticas. A alternativa era essa ou o fechamento, pois as matrizes não pretendiam investir mais aqui. O choque, para mim, não foi pequeno, depois de 20 anos de dedicação à empresa, mas não tinha sequer o direito de opinar a respeito. A dor foi também muito profunda entre todo o pessoal de coração VW; lembro-me de um alemão, dos primeiros que vieram para cá, chorando enquanto o símbolo VW era retirado do alto da fábrica.

Em seguida, começaram os primeiros passos da fusão. Entre as primeiras decisões, fui removido da Diretoria Jurídica (que ficou com a Ford), para assumir exclusivamente a Diretoria de RH, com a missão inicial de montar o novo quadro de executivos.

Foi decidido que a sede da Autolatina seria no prédio onde funcionava a administração da Ford, no Jabaquara, em São Paulo, que a língua oficial na empresa passava a ser a inglesa e as normas internas seriam as da Ford.

Fui o segundo homem VW a ir para o novo prédio (imediatamente depois de Sauer). Todos lá me miravam de maneira estranha. Levado ao escritório do Diretor de RH Ford, sofri o primeiro impacto. Ao cumprimentá-lo, levantou-se dizendo: “essa cadeira é sua”; e não houve argumento que o convencesse a permanecer ali sentado para conversarmos. Pouco depois retirou-se e nunca mais o vi. Mas o grande impacto viria em seguida, quando três funcionários Ford (um de cada vez) vieram a mim para cumprimentar-me e todos afirmaram que ambicionavam o meu lugar... atitude que, na VW, seria absolutamente impensável.

Montado o organograma da empresa, minha próxima tarefa consistiu em propor à Diretoria os nomes para preenchê-lo. Em tese, para cada vaga, havia, no mínimo, dois candidatos – um da VW e outro da Ford. Aí encontrei o primeiro e intransponível paredão cultural: na VW, prevalecia o critério da especialização, enquanto na Ford era a generalização - um executivo VW orgulhava-se de ser o melhor funcionário do mundo naquilo que fazia (era um grande especialista) e, por isso, exibia com orgulho o número de anos em que se encontrava no cargo; um executivo Ford orgulhava-se do número de setores que havia ocupado na empresa (a job rotation). Essa diferença era tal que um Diretor ex-Ford disse-me sem nenhum constrangimento que não entendia como eu, sem ter sido Gerente dos Departamentos de RH, podia ser seu Diretor... o que obrigou-me a responder-lhe que jamais ouvira dizer que, para ser maestro de uma orquestra, fosse necessário tocar antes todos os seus instrumentos...

Mas essa essencial diferença cultural fez com que cada convite a um ex-funcionário VW para ocupar um cargo na nova empresa resultasse em conflito: “o senhor quer que eu, o maior especialista na função x, deixe meu posto para cuidar de y, do qual nada entendo?” – Exatamente ao contrário, à cada notícia de vaga candidatavam-se a ela inúmeros ex-funcionários Ford. Busquei ajuda contratando o professor de uma Universidade francesa especializado em fusão cultural de empresas. Fez entrevistas individuais, proferiu palestras, escreveu recomendações, tudo com o escopo de chegar à aceitação das novas condições pelo pessoal. Ao final de meses de trabalho, disse-me em particular que não conhecia nenhum exemplo assemelhado no mundo que tivesse dado certo. O resultado mais indesejável dessa situação foi, porém, que os executivos VW, descontentes, foram deixando a empresa e a maioria dos cargos foi ocupada pelo pessoal Ford.

Em uma ida à Alemanha, fui instado a expor como andava a formação da nova empresa. Como eles se encontrassem na euforia de um sucesso futebolístico, propus que analisassem a situação como um jogo de futebol. Meu time entrava em campo com um só jogador e já encontrava os onze adversários no campo, que era deles (a ex-sede Ford), sob as regras deles (as normas de trabalho VW foram substituídas pelas normas Ford). O juiz era deles (o Diretor Executivo). A bola (a língua inglesa) era deles e todos os torcedores também... isso era a AUTOLATINA. Essa era a situação do pessoal de camisa VW na nova empresa.

De repente, fui mandado para uma Universidade nos Estados Unidos, para aperfeiçoar meu inglês, pois passara vinte anos estudando apenas alemão. Conhecedor das técnicas norte-americanas de administração de pessoal, entendi logo que entrava no processo de esfriamento, para ser dispensado. Como nada podia fazer, aguardei os acontecimentos. De fato, passado o primeiro mês, fui informado por telefone de que o meu substituto havia sido confirmado no cargo e passava a ser meu sucessor; eu, como tinha sido eleito presidente da ANFAVEA, na volta, cuidaria apenas, com dedicação exclusiva, dos interesses dessa entidade.

Certa feita, em Viena, brindando em um encontro social, o Presidente mundial da VW lançou-me o repto de escrever um livro sobre a fusão que, no seu entender, seria o best seller dele. Não reagi. Continuei cumprindo minhas funções e só hoje, depois de décadas, encontro ânimo para expor meu pensamento sobre o assunto.
Na volta dos EUA, transferi meu escritório para a sede da ANFAVEA e, terminado meu mandato, fui dispensado, não sem algum sofrimento.

Não se diga, porém, que a decisão das matrizes tenha sido equivocada. As duas filiais sobreviveram às loucuras econômicas da política brasileira e ainda acumularam bons resultados. Como eram, entretanto, competidoras no resto do mundo, uma união somente aqui impunha limites intransponíveis. Como iria uma delas informar a outra sobre assuntos estratégicos empresariais? Por isso, depois de sete anos, tornou-se imperioso o desquite. Nesse momento, a equipe Ford continuava íntegra e a equipe VW tinha desaparecido. Eu mesmo, já aposentado, fui contratado como terceiro para auxiliar o lado VW no processo de separação e para recriar seu setor jurídico, que não existia mais. O desquite não foi fácil, mas consumou-se; mais difícil foi a partilha dos bens, mas precisou ser aceita. Esgotada essa tarefa como terceiro, minha vinculação à VW foi encerrada e hoje tenho até dificuldade para entrar na fábrica.

Agora, quando a matriz da Ford anuncia a saída do Brasil, voltei a pensar no drama daquela época.
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19 de abril de 2019

VW XV - AS GREVES DO ABC

O ABC paulista ficou conhecido Brasil afora, acima de tudo, pela sequência de greves promovidas pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Das mais importantes, a primeira ocorreu em maio de 1978, na fábrica da Saab-Scania, mas o sonho dos sindicalistas era parar a Volkswagen, o que conseguiram um ano depois, durante onze dias. A maior dessas greves, no entanto, teve lugar em 1980 e durou quarenta e um dias.
Tratava-se de movimentos de natureza predominantemente política, como oposição aos governos de militares. Da pauta das reivindicações sindicais constava sempre aumento salarial, mas, na verdade, era só uma demonstração de força de seus líderes, pois, já então, os metalúrgicos do ABC eram os trabalhadores brasileiros com melhores salários, excetuados, é claro, os empregados em empresas estatais.
Mesmo antes de assumir a Diretoria de Recursos Humanos, participava do grupo que administrava as greves na VW. Em razão disso, procurei unificar a reação de todas as empresas do setor, coordenando o grupo dos administradores de greves da região. Nessa função, fui até obrigado a receber em minha casa Lula e os então seus advogados, Almir Pazzianotto e Maurício Soares, que fugiam de locais acessíveis à imprensa.
Não pretendo escrever sobre as greves em si mesmas, pois a imprensa foi farta nesse sentido, embora colocando-se sempre ao lado dos grevistas. Vou registrar, sem preocupar-me com datas, alguns fatos ocorridos durante aqueles movimentos, que testemunhei e pelos quais não se interessaram os jornalistas.
A grande liderança operária naqueles dias era Lula, líder sindical autêntico, com elevado grau de confiabilidade entre os metalúrgicos (elogios que nunca lhe fiz como político). Durante aquele período, visitou o Brasil Lech Waleça, líder operário polonês que se elegeu presidente da república da Polônia. O diálogo entre os dois transpirou, principalmente a crítica que lhe dirigiu Lula, ao dizer que um líder sindical autêntico jamais deveria deturpar sua atividade envolvendo-se em política... estranho!
O movimento grevista contou com o apoio incondicional da Igreja Católica, que emprestou a matriz de São Bernardo do Campo para servir como local de reunião dos sindicalistas; seu Bispo chefiou comitiva de trabalhadores a Brasília para encontro com os chefes do governo federal e criou a Pastoral Operária, tudo como apoio aos grevistas. Quando me deparei com Lula falando na missa de domingo, afastei-me do culto.
Como técnica de paralisação, os líderes sindicais organizavam piquetes à porta das fábricas, impedindo fisicamente que nelas entrassem aqueles que assim desejavam. Em uma oportunidade, o próprio Cardeal esteve no piquete da VW, estimulando os sindicalistas. Telefonei-lhe dizendo que não devia ficar à porta do estabelecimento; que estava autorizado a entrar no prédio, ir onde quisesse e falar com quem quisesse, a qualquer momento. Reagiu com um discreto muito obrigado. Em outra oportunidade, Lula e Fernando Henrique Cardoso distribuíam panfletos às portas da fábrica, estimulando a parada (tenho comigo a inacreditável foto). Eu mesmo, um dia, quis entrar de carro na empresa e fui obstado pelo piquete; ignoraram a informação de que minha presença no estabelecimento podia ser decisiva para a solução do conflito; meu motorista tentou entrar, dirigindo o veículo lentamente, com a máxima cautela. Impossível. Um grupo agarrou o carro e balançou-o, para fazer com que capotasse. Saímos dali e ingressamos no estabelecimento por um local que se encontrava em obras.
Durante uma greve, em determinado momento, fui procurado pelos líderes do movimento que desejavam ingressar na fábrica com seus carros de som, alegando ser a única maneira de comunicação eficiente com os grevistas. Proibi, mas coloquei à disposição deles os equipamentos de som da empresa.
Quando a tensão estava muito elevada, chamei os representantes de fábrica e lhes disse que havia, naquela planta, muitos locais de altíssimo risco; que eu não chamaria a Polícia, mas iria responsabilizá-los por todo e qualquer dano resultante do movimento. Passado algum tempo, voltaram e indagaram se eu poderia apontar os locais de risco. Tomei uma planta do imóvel e indiquei-os; eles montaram equipes de segurança e cuidaram para que nada viesse a ocorrer.
Tive, certo dia, minha sala cercada por milhares de trabalhadores, mas atravessei o grupo apenas pedindo licença. Está claro que ouvi algumas palavras indesejáveis que fingi ignorar.
 Em uma das greves, o mercado estava em baixa, a produção consequentemente tinha caído e contávamos por isso com alguns milhares de trabalhadores excedentes. Preveni os líderes do movimento de que demissões, em tais condições, seriam inevitáveis. Como desprezassem minha advertência, autorizei a dispensa de 120 empregados, o que foi informado pelos quadros de aviso; face a inexistência de reação, repeti a lista no dia seguinte e no subsequente. Uma jornalista estranhou aquele número fixo de dispensas, ao que lhe respondi que, atendendo a seu protesto, no dia seguinte seriam 121...
Acredito que esse período, apesar de conturbado e indesejável, tenha tido seu efeito pedagógico e deixado saldo positivo: os dois lados compreenderam que não era esse o caminho para a solução dos desentendimentos e nunca mais se teve movimento assemelhado.
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31 de março de 2019

VW XIV - A PREVIDÊNCIA

Deixei claro na carta aberta, ao assumir a Diretoria de Recursos Humanos, que minha grande preocupação era com a aposentadoria daquele pessoal. Não achava justo que, depois de trabalhar duro 20, 30 anos, ou até mais, alguém fosse forçado a viver na casa dos filhos, sustentado por eles, sem nenhum centavo de seu, pois a aposentadoria pública, do INSS, não cobre sequer as despesas médicas da velhice. Além disso, tinha para mim que grande parte das reivindicações de aumento salarial decorria da consciência da necessidade de poupar para a velhice.

Encontrei dois colaboradores competentes com as mesmas preocupações. Começamos a pensar juntos sobre a solução do problema e concluímos que o mais correto seria contratar uma empresa especializada no assunto, para a elaboração de um projeto. Assim foi feito. Depois de várias reuniões de reflexão, chegamos a um resultado que entendíamos satisfatório.

Levei o trabalho à Diretoria. Meus colegas receberam-no com aplausos, pois participavam das mesmas apreensões e a maioria vinha da matriz, onde esse tema tinha sido abordado e resolvido. Aprovado por unanimidade, fiquei com a incumbência de ganhar também o beneplácito da Diretoria na Alemanha. Lá fui. Outra vez, aplausos pela iniciativa, mas, a final, o Presidente sentenciou: a empresa, no Brasil, vem apresentando déficit e o senhor espera que aprovemos um projeto que nos traz mais despesas e mais riscos... volte quando a empresa retomar a lucratividade.

Minha viagem de volta foi triste; passei todo o tempo ruminando sobre o que precisaria fazer para superar o óbice. Ao chegar, convoquei o pessoal da assessoria, junto com meus dois colaboradores, e tracei o rumo: precisamos de um projeto que não represente custo nem risco adicionais para a empresa. Sobre o custo, já tínhamos alguma ideia: reservar parte da verba orçamentária anual destinada a aumentos salariais de mérito e desviá-la para o fundo de aposentadoria, sem nenhum acréscimo, portanto, de despesa. Já a superação do risco futuro ficou a cargo da experiência dos assessores.

Passado algum tempo, voltaram eles com o primeiro projeto brasileiro de aposentadoria baseado na contribuição definida e a capitalização. Fui duas vezes ao Chile para conhecer como o sistema funcionava lá. Enfim, a matriz aprovou!
Nas palestras que fiz ao ensejo do lançamento da ideia, com os dados levantados pelos técnicos, pude mostrar que, se alguém trabalhasse 30 anos na empresa e tivesse feito também uma contribuição (que era voluntária) do mesmo valor que a empresa depositava na conta dele, ao aposentar-se, receberia benefício que, somado ao que iria receber do INSS, equivaleria ao salário percebido no período laboral. Nem todos acreditaram, influenciados pelo fracasso de promessas anteriores, mas quem acreditou (e tenho exemplo na minha família), chegou à aposentadoria sem perceber queda de renda.

Ninguém pode imaginar minha alegria, hoje, ao encontrar um aposentado VW e saber que contribuí para seu bem-estar. Na separação da AUTOLATINA, metade do fundo acumulado foi para a Ford, apesar de meus protestos, mas hoje, o encontro de um ex-empregado daquela empresa, também aposentado e feliz, gera em mim, da mesma forma, uma imensa alegria.

A Previdência Privada Volkswagen é hoje uma potência econômica, séria e eficientemente administrada, a serviço de seus beneficiários.
Viva!
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26 de março de 2019

VW XIII - REPRESENTAÇÃO EXTERNA

Mário Garnero, ao tempo em que foi Diretor de RH da VW, indicou-me para membro do Conselho Fiscal da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), à qual fiquei ligado desde então; pouco depois integrei sua Diretoria, e Sauer apontou-me como candidato à Presidência na oportunidade em que cabia à VW ocupar o cargo.

Como todo agrupamento de empresários, tem esse suas naturais dificuldades. Todos os participantes têm experiência, são talentosos, ambiciosos, do que decorre inevitável disputa interna.
A gestão André Beer e a minha, em especial, foram dificultadas pela situação política. Vivia o Brasil processo inflacionário assustador. Com a intenção de combatê-lo, sucediam-se Ministros da Fazenda com ideias cada vez mais estapafúrdias.  Em consequência, esse era o tema que nos ocupava todos os dias. Controle e congelamento de preços foram utilizados como terapia, o que, na verdade, só agravava o problema. Burocratas sem nenhuma responsabilidade pelas empresas decidiam sobre o preço de seus produtos, chegando a forçá-las a vender com prejuízo. Mensalmente, os representantes de nossas associadas registravam o percentual de aumento de que necessitavam. Havia quem solicitasse valor correspondente exatamente à necessidade, quem jogasse a pretensão nas nuvens, na certeza de que receberia menos, e até quem pretendesse aproveitar-se da oportunidade para lograr preço competitivo em relação às concorrentes. Não era muito difícil descobrir quem estava blefando, mas éramos obrigados a registrar o pedido como fora feito e levá-lo ao CIP. De parte do governo, a situação era ainda pior. Os burocratas não aceitavam percentuais de aumento de preços diferenciados por empresas e por isso quem precisava mais recebia menos e quem precisava menos recebia mais... tudo inquestionável, em nome da lei, como gesto necessário ao combate à inflação quando, na verdade só contribuía para aumentá-la. Aproveitamos a proclamação da Constituição de 1988 para defender a tese de que ali se afirmava a livre iniciativa, o livre mercado, a liberdade econômica, não restando mais lugar para o famigerado CIP com seu controle de preços. Foi um desafogo.

A FIESP estava em fase de renovação da Diretoria e, na chapa oficial, não constava a ANFAVEA nem outra entidade de empresas de capital estrangeiro. Em razão de meu protesto, fui incluído na chapa, eleito e encarregado por Mário Amato de fundar e dirigir, na FIESP, o Grupo das Empresas Brasileiras de Capital Estrangeiro. Uma turma extraordinária. No início, dela participavam os próprios Presidentes das Empresas. Era época da Constituinte e da minuta em discussão constavam artigos que distinguiam empresas nacionais de estrangeiras, criando privilégios para as primeiras. Lutamos contra isso. Contratamos uma economista para redigir um livro que revelava a gigantesca contribuição do capital estrangeiro à economia do País. Participamos de reuniões com os constituintes e terminamos por fazer vitoriosa a nossa tese: são todas empresas brasileiras, o que pode distingui-las é apenas a origem do capital, sem que isso repercuta em seus direitos e deveres.
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